Caso Master · Flow Podcast

Lula diz que Jaques Wagner quer depor no caso Master; a PF intimou e ele pediu adiamento

No Flow Podcast, o presidente afirmou que o senador baiano "não tem nada a ver" com o banco de Daniel Vorcaro. Reeleito neste domingo, Wagner é investigado no Supremo desde junho por suspeita de receber vantagens do grupo.

Briefing do Rumo nº 2 · Domingo, 4 de outubro de 2026

Foto: Ricardo Stuckert/PR (CC BY-SA 4.0)

Em resumo

  • Em 01/10, Lula disse no Flow que "tudo que o Jaques Wagner quer é ser chamado pra prestar depoimento".
  • A PF intimou Wagner em 21/07 a depor em 07/08; o depoimento foi adiado a pedido da defesa.
  • A decisão do STF que autorizou a operação cita um apartamento de R$ 2,45 milhões e R$ 3,5 milhões pagos a empresa da família do senador; Wagner nega.

Na entrevista ao Flow Podcast transmitida na noite de quinta-feira (01/10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado e investigado no caso Banco Master. "Não tem nada a ver com isso", disse. "Tudo que o Jaques Wagner quer é ser chamado pra prestar depoimento."

Perguntado por que isso não acontece, Lula respondeu: "Quem faz o inquérito é a Polícia Federal, quem chama é o juiz".

O registro público mostra outra sequência. A Polícia Federal (PF) intimou Wagner em 21/07 a depor em 07/08. A PF aceitou adiar o depoimento a pedido da defesa, que alegou não ter tido acesso completo aos autos. A defesa diz que ele pretende falar depois de conhecer os autos. As reportagens não informaram nova data.

A investigação veio a público em 18/06, na 9ª fase da Operação Compliance Zero, com 18 mandados de busca. Na decisão que impôs as medidas, de 17/06, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), registra que a PF aponta Wagner como "suposto beneficiário central" de vantagens ligadas a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

Segundo a PF, Wagner mandou a Augusto os dados do apartamento 1.702 do Poème Horto, em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões, depois comprado por uma empresa com dinheiro de fundos do grupo. A PF cita ainda R$ 3,5 milhões pagos em 17/10/2025 por uma empresa de Augusto à BN Financeira, ligada ao enteado do senador, voos em aviões particulares e ingressos de show nos Estados Unidos para parentes dele.

A polícia liga também emendas de Wagner sobre crédito consignado e sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a interesses do banco. Mendonça proibiu o senador de falar com os demais investigados.

Lula disse que a história começa numa política de cesta básica que "o Wagner vendeu pra eles" quando era governador. Wagner governou a Bahia de 2007 a 2014. A Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), com o cartão consignado Credcesta, foi leiloada em abril de 2018, no governo de Rui Costa (PT), quando Wagner chefiava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, segundo o Poder360. A exploração do cartão passou à PKL One, ligada a Augusto Lima, e no fim de 2018 o Banco Máxima, de Vorcaro, comprou metade dela.

Para Lula, as fraudes vieram quando o grupo virou banco, no governo Bolsonaro: "o Roberto Campos deixou virar banco". O Banco Central (BC) aprovou a compra do Máxima por Vorcaro em 14/10/2019, já com Campos Neto. O Master foi liquidado em 18/11/2025, com Gabriel Galípolo, indicado por Lula. "Eles criaram o banqueiro e eu transformei o banqueiro num prisioneiro", disse o presidente.

Em 25/09, o UOL revelou que, numa proposta de delação, Vorcaro disse pagar R$ 3 milhões por mês a um grupo ligado a Wagner: R$ 2 milhões por contrato entre o Master e a PKL One e R$ 1 milhão em espécie. PF e Ministério Público Federal recusaram o acordo; o MPF disse que os relatos "não vinham acompanhados de elementos de corroboração suficientes".

Lula também falou do filho Fábio Luís, o Lulinha, investigado no STF por suspeita de tráfico de influência a favor de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". "Eu duvido que meu filho tenha feito um lobby com qualquer ministro meu", disse. Da lobista Roberta Luchsinger, investigada pela PF, afirmou: "Eu não conheço essa Roberta". Chamou-a de "pilantra muito grande", que "muito se assemelha ao Vorcaro".

Sobre o adversário Flávio Bolsonaro (PL), Lula disse que "esse rapaz nunca trabalhou na vida" e "foi vereador com 21 anos". Flávio nunca foi vereador: elegeu-se deputado estadual no Rio em 2002, aos 21. Para Lula, ele não tem qualificação "nenhuma para ser síndico de prédio".

Neste domingo (04/10), Wagner foi reeleito, com 3.907.885 votos (27,6% dos válidos, segundo a Agência Senado). O inquérito segue no STF, com Mendonça.

Por que importa

A três dias da eleição, o presidente usou a entrevista para inocentar um aliado investigado no STF e descreveu um senador à espera de ser chamado, quando a PF já o intimou e o depoimento foi adiado a pedido dele. Reeleito, Wagner segue investigado; o inquérito decide se a suspeita vira denúncia.

O outro lado

Wagner nega irregularidades. Depois da operação de 18/06, o gabinete disse à CNN e ao Poder360 que o apartamento citado nunca integrou o patrimônio do senador, que ele nunca atuou em favor do Banco Master ou de outra instituição financeira e que os US$ 55 mil e 33 mil euros apreendidos pela PF em endereços ligados a ele vêm de diárias legais de missões oficiais, declaradas e não usadas. Sobre a proposta de delação, a defesa de Augusto Lima chamou as informações de "completo absurdo, mentirosas, desconexas da realidade e delirantes" (Poder360, 25/09). O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, diz que ele "nunca em nenhum momento" atuou em favor do Careca do INSS (Poder360, 27/08).