Polícia Federal enterra o boato da embaixada americana: “não havia nenhum plano”
Andrei Rodrigues disse neste domingo (04/10) que as buscas de sexta não acharam risco a nenhuma embaixada. A americana segue fechada e sem data oficial para reabrir.

Em resumo
- A Polícia Federal cumpriu 2 mandados de busca em 02/10, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, e não achou risco concreto.
- Em 04/10, o diretor-geral Andrei Rodrigues resumiu: “não havia nenhum plano”.
- Os 5 postos dos Estados Unidos no Brasil seguiam, na noite de 04/10, sem data oficial de reabertura.
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, afirmou neste domingo (04/10) que não há risco nem indício de plano de ataque contra embaixadas em Brasília. Na coletiva do Centro Integrado de Comando e Controle Nacional, ele disse: “Os elementos colhidos neste momento não apontam nenhuma ação concreta. Ou seja, não havia nenhum plano”.
Segundo Andrei, foi a própria Embaixada dos Estados Unidos que avisou a PF. Na sexta (02/10), a corporação cumpriu dois mandados de busca e apreensão. “Cumprimos as medidas judiciais – é um processo sigiloso – e, de fato, não comprovamos nenhum elemento concreto que nos apontasse um risco efetivo para essa embaixada ou para qualquer outra embaixada aqui no nosso território.”
O caso segue aberto em inquérito, que, nas palavras dele, “será instruído com as apreensões que foram feitas, e aí nós poderemos ou não ter algum desdobramento”.
O que os Estados Unidos disseram oficialmente é pouco. O alerta da missão americana, datado de 01/10, suspendeu a partir de 02/10 os serviços da embaixada em Brasília e dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre “por questões de segurança”. Não diz qual era a ameaça nem liga a medida à eleição.
O Departamento de Estado, procurado, respondeu: “Estamos trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”. A Austrália fechou a embaixada em 02/10 citando o alerta americano. Canadá, Irlanda, Reino Unido e Alemanha só reforçaram avisos de cautela; nenhum mandou deixar o Brasil.
Foi nesse vazio que o boato cresceu. No fim da tarde de 01/10, o Comando Sul dos Estados Unidos postou que a 82ª Divisão Aerotransportada pode ser enviada “em 18 horas” a qualquer lugar. O post não cita o Brasil: descreve uma prontidão que existe há anos. Nas redes, virou “Trump convocou tropas para invadir o Brasil em 18 horas”. Não houve ordem nem destino.
Outra versão, publicada como “exclusivo” pela Revista Fórum com fonte anônima, dizia que a PF e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tinham alertado para um golpe. As duas negaram ao Projeto Comprova; a Abin respondeu: “Essa informação não procede”. Um post com essa versão passou de 159,7 mil visualizações no X até 03/10; outro foi visto por cerca de 430 mil pessoas no Facebook.
Na noite de 03/10, o Ministério Público Eleitoral pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a remoção de posts que ligavam o fechamento das embaixadas a terrorismo e a “risco iminente de golpe”, feitos em perfis de cinco candidatos a deputado federal e estadual no Facebook e numa conta do X, e multa aos responsáveis.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse em 04/10: “Não temos relatório nem da PF, nem da Abin indicando qualquer tipo de risco”.
Há uma segunda frente, que não é a da embaixada: a PF abriu procedimento preliminar, a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), sobre suspeita de interferência estrangeira, depois de o jornal The Guardian noticiar verba do Departamento de Estado para um programa sobre “lawfare” e censura no Brasil. “Não foi publicada a portaria do inquérito, mas já temos uma investigação em curso”, disse Andrei.
E a reabertura? Na noite de 04/10, o alerta de 01/10 ainda era o último da página oficial da missão americana, sem data de retorno. A orientação de “procurar na segunda (05/10)”, dada por um funcionário do consulado de São Paulo à CNN Brasil em 02/10, é recado de balcão, não anúncio oficial.
Por que importa
Durante três dias, o fechamento de uma embaixada sem explicação virou matéria-prima para histórias de invasão e golpe às vésperas do voto. A palavra oficial da PF fecha a parte da ameaça; a parte do porquê os Estados Unidos fecharam continua sem resposta deles.
O outro lado
O Departamento de Estado, por meio do consulado em São Paulo, disse ao Projeto Comprova que a “administração Trump tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos” e que trabalha “em estreita cooperação” com as autoridades brasileiras. Não detalhou a ameaça nem informou quando o atendimento volta.
Fontes
- Agência Brasil (04/10, 14h48)
- g1 (04/10)
- Missão dos EUA no Brasil — alerta de 01/10
- CNN Brasil (04/10, 12h27) — apuração sobre interferência
- Jovem Pan (04/10) — representação da AGU
- Projeto Comprova via A Gazeta (03/10)
- Agência Lupa (03/10)
- g1 (04/10) — ações do MP Eleitoral
- Metrópoles (04/10, 14h57) — ações do MP Eleitoral
- g1 (04/10) — Nunes Marques sobre risco externo
- CNN Brasil (02/10) — vistos e orientação do consulado
- Comando Sul (X, 01/10)
- Revista Fórum (02/10) — o “exclusivo” desmentido
