Caso Master · Dark Horse

Dinheiro que Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro para "Dark Horse" foi parar no Texas

Segundo a piauí, a minuta do contrato mandava o dinheiro para a produtora do filme sobre Jair Bolsonaro, mas ele foi para um fundo administrado por um advogado amigo de Eduardo Bolsonaro. Flávio é investigado no STF desde julho e nega irregularidades.

Briefing do Rumo nº 2 · Domingo, 4 de outubro de 2026

Foto: Andressa Anholete/Agência Senado (CC BY-SA 4.0)

Em resumo

  • Pelos relatórios da PF, sete remessas somaram US$ 12,33 milhões ao fundo Havengate, no Texas; o acordo previa US$ 24 milhões.
  • A primeira remessa, de US$ 2 milhões, saiu em 13/02/2025, mês em que Eduardo Bolsonaro se mudou para os Estados Unidos.
  • André Mendonça autorizou em 22/07 a PF a investigar Flávio por corrupção, lavagem e evasão de divisas; ele diz que não há "um centavo de dinheiro público" no filme.

"Dark Horse" é a cinebiografia de Jair Bolsonaro, produzida pela Go Up Entertainment. Em maio, o Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência, negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, até US$ 24 milhões para o filme. Nos relatórios da Polícia Federal (PF) tornados públicos em setembro, o pedido aparece como R$ 131 milhões, segundo a Agência Brasil.

Segundo a revista piauí, a minuta do contrato previa que Vorcaro depositasse os dólares na conta da Go Up. O dinheiro, porém, foi para o Havengate Development Fund, fundo registrado no Texas e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro. A revista diz que o motivo da troca é desconhecido.

O dinheiro também não saiu direto das empresas de Vorcaro. Pela PF, foram sete remessas da Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Junior, o "Mineiro", ao Havengate, que somam US$ 12,33 milhões. A primeira, de US$ 2 milhões, saiu em 13/02/2025. Freixo fechou delação com a Procuradoria-Geral da República (PGR), homologada no Supremo Tribunal Federal (STF), e nela cita os repasses ao fundo do filme, segundo o Metrópoles.

Em 08/09/2025, Flávio cobrou o banqueiro em áudio citado pela PF: "tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás". Em 16/09/2025, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtido pela piauí registra mais US$ 1,6 milhão ao Havengate. À GloboNews, Flávio havia dito que o último pagamento fora em maio de 2025.

A PF investiga se parte do dinheiro bancou Eduardo, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Numa mensagem de março daquele ano, citada pela PF, ele escreveu: "O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo." A PF ainda apura quanto chegou à produção e quanto ficou no fundo.

O caso chegou ao STF por notícia-crime do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), redistribuída em 25/06 ao ministro André Mendonça, relator do caso Master (Petição 16.292). Em 22/07, Mendonça autorizou a PF a investigar Flávio por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, segundo o Estadão. O inquérito corre sob sigilo.

Há uma segunda frente, com o ministro Flávio Dino, sobre emendas parlamentares ligadas à produção. Em 10/09, a PF fez buscas contra o deputado Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up.

Vorcaro comprou o Banco Máxima, que virou Master, com aval do Banco Central (BC) em 14/10/2019. O BC liquidou o banco em 18/11/2025. Em 04/03/2026, Mendonça decretou a prisão preventiva do banqueiro por "risco concreto de interferência nas investigações". Neste domingo (04/10), Vorcaro votou na Papuda, em Brasília, onde está preso.

Flávio diz que buscou patrocínio privado. Na sabatina da TV Globo, em 28/08, chamou o aporte de "boa-fé" e lembrou que Vorcaro fez "um investimento de R$ 160 milhões para um programa do Luciano Huck aqui da Globo". Em 10/09, afirmou: "Não tem absolutamente nada de errado com esse filme. Não tem um centavo de dinheiro público". Sobre a remessa de setembro, respondeu: "Pergunte para a produtora que parcela é essa".

Eduardo nega ter recebido dinheiro do fundo. Em vídeo de 30/09, disse que, perto das prisões do 8 de Janeiro, "até a corrupção ou as orgias do Vorcaro, isso é o de menos, gente". Em 16/06, a Primeira Turma do STF o condenou a 4 anos e 2 meses por coação no curso do processo do golpe.

No Flow Podcast, em 01/10, Lula usou o caso contra o adversário: "Esse dinheiro do filme que ele fala, 83 milhões de dólares", disse, seria para "mandar pro irmão ficar nos Estados Unidos falando mal do Brasil". O acordo conhecido é de US$ 24 milhões, e a PF não concluiu o destino final do dinheiro.

Por que importa

O candidato que disputa o segundo turno é investigado no STF por um dinheiro que pediu ao dono de um banco liquidado e que passou por um fundo no exterior antes de chegar ao filme sobre o pai. A PF ainda não disse quanto chegou à produção, quanto ficou no fundo e se parte bancou Eduardo nos Estados Unidos.

O outro lado

Flávio Bolsonaro nega irregularidades e diz que buscou patrocínio privado, sem dinheiro público: "Não tem absolutamente nada de errado com esse filme. Não tem um centavo de dinheiro público" (10/09, ao Estadão). Procurada pela piauí sobre a minuta, a assessoria dele disse que as perguntas deveriam ser feitas à produtora. Eduardo nega ter recebido recursos do fundo (Poder360). A Go Up diz trabalhar de forma "documentada, transparente" (à piauí). Paulo Calixto não respondeu à piauí.