Jorge Oliveira, citado para o Supremo num governo Flávio, distribuía livro de Ustra
Segundo depoimento da viúva do coronel, o hoje ministro do Tribunal de Contas da União era o enviado de Jair Bolsonaro para comprar exemplares de "A Verdade Sufocada". Flávio não anunciou nenhum nome para o STF.
Em resumo
- Em 10/10, a Folha de S.Paulo publicou que Jorge Oliveira, ministro do TCU desde 31/12/2020, comprava na casa da viúva de Ustra exemplares do livro do coronel para distribuir entre apoiadores de Jair Bolsonaro.
- O relato é de Joseíta Ustra ao jornalista Fabio Victor e está no livro "Poder Camuflado".
- Em 08/10, a coluna de Bela Megale, de O Globo, já apontava Oliveira como nome defendido na campanha de Flávio para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jorge Oliveira, um dos nomes mais próximos da família Bolsonaro, ajudou a espalhar entre apoiadores de Jair Bolsonaro o livro de memórias do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, segundo texto publicado pela Folha de S.Paulo em 10/10.
De acordo com o relato, Oliveira era o enviado de Bolsonaro à casa de Joseíta Ustra, viúva do coronel, em Brasília, para comprar exemplares de "A Verdade Sufocada", que eram depois distribuídos entre bolsonaristas. A informação vem do depoimento da própria Joseíta ao jornalista Fabio Victor, detalhado no livro "Poder Camuflado".
Ustra comandou, nos anos 1970, o DOI-Codi de São Paulo, órgão de repressão da ditadura militar onde presos políticos foram torturados. Em 2008, a Justiça de São Paulo o reconheceu como torturador numa ação movida por uma família de ex-presos. Ele morreu em 2015 sem ter sido condenado criminalmente. "A Verdade Sufocada" é a versão dele sobre o período.
Jair Bolsonaro nunca escondeu a admiração pelo coronel: ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, em 17/04/2016, dedicou o voto à memória de Ustra.
A revelação ganha peso por causa do momento. Em 08/10, a coluna de Bela Megale, de O Globo, publicou que Oliveira é um dos nomes defendidos na cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), caso o senador vença Lula no segundo turno de 25/10. A Folha também o trata como um dos mais cotados. Nos dois casos, a informação é de bastidor, sem fonte identificada.
Flávio não anunciou publicamente nenhum nome para o Supremo. Indicar ministros do STF é atribuição do presidente da República, e o escolhido precisa ser aprovado pelo Senado.
Oliveira não é um nome novo para a vaga. Em 2020, Jair Bolsonaro chegou a escolhê-lo como primeira opção para o STF; ele recusou, dizendo que ainda precisava de mais experiência. Acabou indicado ao TCU, onde tomou posse em 31/12/2020, e a cadeira no Supremo ficou com Kassio Nunes Marques.
Antes disso, Oliveira trabalhou no gabinete de Eduardo Bolsonaro, chefiou a Subchefia de Assuntos Jurídicos e foi secretário-geral da Presidência no governo de Jair Bolsonaro. O pai dele foi assessor de Bolsonaro por cerca de 20 anos, segundo O Globo, citado pelo jornal A Tarde.
No TCU, ele foi relator do voto que mudou o entendimento sobre quem decide o destino de joias e presentes recebidos por ex-presidentes, tema que envolve tanto Lula quanto o inquérito das joias sauditas de Bolsonaro.
O que falta: uma manifestação de Oliveira sobre o relato, e qualquer definição oficial da campanha de Flávio sobre quem indicaria ao Supremo.
Por que importa
Quem o próximo presidente põe no Supremo pesa por décadas: ministro do STF fica no cargo até os 75 anos. Saber quem são os nomes discutidos e o que eles já fizeram é parte da escolha do eleitor em 25/10, mesmo que a lista ainda seja só especulação de bastidor.
O outro lado
Até a leitura desta matéria (11/10, manhã), Jorge Oliveira, o TCU e a campanha de Flávio Bolsonaro não haviam se manifestado publicamente sobre o relato nem sobre a possível indicação.

