Bolsa a 206 mil pontos com Flávio na frente: economistas dizem que a festa tem prazo
A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno derrubou juros e dólar. Economistas ouvidos pela Folha avisam que o rali só dura se vier um plano concreto para as contas públicas.
Em resumo
- Em 05/10, um dia depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,70% e fechou em 206.911,89 pontos, segundo a Exame.
- Na abertura de 05/10, as taxas dos juros futuros caíram 90 pontos-base e bateram o limite de oscilação da B3, segundo a Bloomberg Línea.
- A dívida bruta chegou a 82,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, ante 73,1% em janeiro de 2023, segundo a Bloomberg Línea.
O mercado financeiro brasileiro viveu na semana de 05/10 a 09/10 um dos movimentos mais fortes de sua história recente. O gatilho foi o resultado do primeiro turno, em 04/10: Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao contrário do que apontava a maioria das pesquisas. Os dois disputam o segundo turno em 25/10.
Na segunda-feira, 05/10, o Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas da bolsa de São Paulo, subiu 7,70% e fechou em 206.911,89 pontos, a maior alta diária desde março de 2020, segundo a Exame. O dólar teve a maior queda em oito anos e encostou em R$ 5. Na sexta, 09/10, o índice fechou em novo recorde, 209.066,90 pontos, com o dólar abaixo de R$ 5, segundo a Reuters.
O movimento mais revelador foi o dos juros futuros, as taxas que o mercado cobra hoje para emprestar dinheiro por prazos longos e que servem de base para financiamento de casa, carro e empresa. Na abertura de 05/10 elas caíram 90 pontos-base (0,90 ponto percentual) e esbarraram no limite máximo de oscilação da B3, segundo a Bloomberg Línea. O contrato com vencimento em janeiro de 2037 passou de 14,16% ao ano na sexta, 02/10, para 13,24% na segunda, segundo a Exame.
A explicação dos analistas é uma só: investidores apostam que um governo Flávio faria ajuste fiscal, ou seja, cortaria gastos para que o governo pare de gastar mais do que arrecada. O banco JPMorgan escreveu a clientes que a maior chance de uma agenda de consolidação das contas públicas combina com queda das taxas longas, e que metade da alta possível das ações dependeria de medidas fiscais concretas, segundo a Exame.
É aí que entra o alerta. Economistas consultados pela Folha em 11/10 dizem que a euforia não se sustenta só com expectativa. "Se o mercado julgar que as propostas podem resolver o problema e são realizáveis, os ativos podem melhorar", disse Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank. Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, defendeu começar pelos supersalários do funcionalismo, pela previdência dos militares e pelas emendas parlamentares, e não por um corte brusco: "Não se trata de um grande ajuste no primeiro ano, o que seria indesejável".
O tamanho do problema aparece nos números. A dívida bruta do governo, tudo o que o setor público deve, chegou a 82,6% do PIB em agosto, contra 73,1% em janeiro de 2023, segundo a Bloomberg Línea. Para estabilizá-la seria preciso um superávit primário (sobra de receita antes de pagar os juros) de 2% a 3% do PIB, mas o país acumulava déficit de 0,6% do PIB nos 12 meses até agosto.
Nem todos veem o corte como solução imediata. Analistas da consultoria BCA Research, citados pela Folha, avaliam que um aperto forte poderia levar o Brasil à recessão em 2027 e escreveram que "a generosidade fiscal sob Lula tem sido a principal força mantendo o Brasil fora da recessão". Já José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, defendeu rever os gastos obrigatórios.
A campanha de Flávio fala em um "tesouraço" nos gastos e promete estabilizar e depois reduzir a dívida, mas ainda não detalhou as medidas, segundo a Folha e a Bloomberg Línea. Ele nega que pretenda desvincular a Previdência e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) do ganho real do salário mínimo ou acabar com os pisos de saúde e educação.
O que falta acontecer: o segundo turno de 25/10 e, a depender do resultado, a apresentação de um plano fiscal que precisa passar pelo Congresso.
Por que importa
Juro futuro mais baixo chega ao bolso: é ele que baliza o custo de financiamento imobiliário, crédito para empresas e o rendimento de aplicações de renda fixa, e dólar mais barato alivia preço de importados e combustível. Mas a queda foi movida por uma promessa; se o plano não vier ou não passar no Congresso, o movimento pode se desfazer tão rápido quanto veio. Para quem pensa em investir ou se endividar agora, o recado é que o preço de hoje embute uma aposta eleitoral.
O outro lado
Lula afirma que manterá o arcabouço fiscal e buscará eficiência no gasto, e critica a possibilidade de cortes de R$ 200 bilhões citando programas como Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida e Gás do Povo, segundo a Folha. A campanha de Flávio nega que estude desvincular benefícios do salário mínimo ou acabar com os pisos de saúde e educação.
