Europa · dívida pública

França assusta a Europa, mas gestores dizem que o Brasil e os emergentes aguentam o tranco

O juro da dívida francesa voltou ao maior nível em mais de duas décadas e reacendeu o medo de uma crise como a de 2011. Gestores internacionais avaliam que os países emergentes estão mais protegidos desta vez, mas apontam o fiscal como ponto fraco.

Rumo Economia · 11 de outubro de 2026

Foto: Thomas Padilla - European Commission / CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

Em resumo

  • Em 08/10, a taxa do título francês de 10 anos se aproximou de 4,9% ao ano, perto do maior nível desde 2002, segundo a InfoMoney.
  • O projeto de orçamento francês de 2027 prevê déficit de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB), acima do limite de 3% da União Europeia, segundo a InfoMoney.
  • Em 18/09, a agência Moody's rebaixou a nota de crédito da Polônia de A2 para A3, citando déficits altos e dívida crescente.

A França, segunda maior economia da zona do euro, virou nas últimas semanas o principal foco de tensão do mercado de dívida mundial. Em 08/10, a taxa paga pelo governo francês em títulos de 10 anos se aproximou de 4,9% ao ano, perto do maior nível desde 2002, segundo a InfoMoney. Quanto maior essa taxa, mais caro fica para o país rolar a própria dívida, e mais o mercado sinaliza desconfiança.

O termômetro mais observado é o spread, a diferença entre o juro que a França paga e o que a Alemanha, considerada o devedor mais seguro da Europa, paga no mesmo prazo. Essa diferença chegou a cerca de 1,3 ponto percentual, a maior desde a crise da dívida europeia do início da década passada, segundo a InfoMoney e o Valor Econômico.

O motivo é fiscal. O projeto de orçamento de 2027 prevê déficit de 5,4% do PIB, bem acima do teto de 3% fixado pela União Europeia, e a dívida pública francesa passa de 3,5 trilhões de euros, perto de 120% do PIB, segundo a InfoMoney. O governo francês não fecha as contas no azul desde 1974. O presidente do Banco da França, Emmanuel Moulin, reconheceu que a situação é séria, mas descartou a necessidade de ajuda do Banco Central Europeu (BCE).

A lembrança que isso desperta é a de 2011, quando a crise da dívida de países como Grécia, Itália e Espanha se espalhou pelo mundo. Na época, investidores fugiram de ativos considerados arriscados, e os títulos e moedas dos países emergentes, grupo que inclui o Brasil, sofreram saídas bruscas de dinheiro.

Desta vez, gestores ouvidos pela Bloomberg, em reportagem publicada pelo Valor em 11/10, avaliam que os emergentes estão mais protegidos. Os argumentos: contas públicas e externas em situação melhor do que há 15 anos, juros altos que funcionam como colchão para o investidor, e bancos centrais que ganharam credibilidade ao atravessar choques como a pandemia.

"Em comparação com 2011, os mercados emergentes estão hoje em uma posição melhor, com dinâmicas fiscais mais sólidas, contas externas mais robustas e rendimentos nominais elevados, que proporcionam resiliência estrutural", afirmou Carol Lye, gestora da Brandywine Global Investment Management, segundo o Valor (11/10). Eric Fine, chefe de dívida de mercados emergentes da gestora VanEck, disse na mesma reportagem: "Os mercados emergentes estão bem posicionados".

Há, porém, exceções. Os países da Europa Central e Oriental, como a Polônia, são vistos como os mais expostos, porque suas economias são muito ligadas às da zona do euro. Em 18/09, a Moody's, uma das três grandes agências que dão nota ao risco de calote de governos, rebaixou a Polônia de A2 para A3, citando déficits elevados e dívida em alta.

O Brasil aparece na reportagem como caso de atenção pelo lado fiscal: a dívida pública passou de 80% do PIB. A dívida bruta chegou a 82,6% do PIB em agosto, segundo a Bloomberg Línea. "A liquidez pode se deteriorar muito mais rapidamente do que os fundamentos econômicos", alertou Lyndon Man, da gestora Invesco, segundo o Valor. Para ele, o desafio é saber se a melhora de humor após a eleição brasileira será acompanhada de um ajuste fiscal crível.

O que falta acontecer: a tramitação do orçamento francês de 2027 no Parlamento e a reação das agências de risco à França. No Brasil, o segundo turno de 25/10 define quem terá de apresentar o plano para as contas públicas que os investidores estão cobrando.

Por que importa

Crise na Europa costuma chegar ao Brasil pelo dólar: quando o investidor estrangeiro foge do risco, tira dinheiro daqui, o real perde valor e sobem os preços de importados, combustível e viagens. Se os gestores estiverem certos, o tombo desta vez seria menor, mas a ressalva vale para o Brasil: a defesa contra o contágio depende de as contas públicas daqui inspirarem confiança.

O outro lado

O governo francês, por meio do presidente do Banco da França, Emmanuel Moulin, disse que a situação é séria mas que não há necessidade de socorro do BCE, segundo a InfoMoney. Sobre a avaliação dos gestores em relação ao Brasil, não houve manifestação do governo brasileiro.

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